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Blog do Pinheiro: Diálogo Inter-Religioso


67 - CRENÇAS X AMOR

(13/6/2008)

 

 

Embora a dicotomia crenças x amor já tenha sido abordada em matérias anteriores deste blog, volto a justificar ainda mais claramente minha posição (adotada em meus dois livros ecumênicos), segundo a qual a “verdadeira religião” não consiste essencialmente em “crenças” ou em “atos de fé”, mas na “vivência do amor”. A “verdadeira religião”, já dizia Zoroastro, mil anos antes de Cristo, “não consiste em se crer em divindades, mas em procurar sempre ligar-se ao bem em pensamentos, palavras e atos” (apud JOMANO, p. 23). (Nota: as referências bibliográficas completas desta matéria se encontram em meu livro Entrevistas com Jesus, 2ª edição revista e ampliada, p. 361-372).

 

“Crer” é muito fácil. Difícil é viver o amor.  A grande maioria das pessoas diz que acredita em Deus, mas não traduz sua crença na vivência do amor. Os que lançaram a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki também acreditavam em Deus e se diziam “cristãos”. Os que exterminaram seis milhões de judeus (e um milhão e meio de ciganos) durante a Segunda Guerra Mundial também tinham “uma religião” (Hitler era católico) e os que atualmente exploram os países do Terceiro Mundo são quase todos “religiosos”, no sentido institucional do termo. Os que mataram cerca de cinco mil protestantes numa só noite, a Noite de São Bartolomeu (França, 24 de agosto de 1572), diziam-se cristãos católicos, e os mataram em nome de Deus e da “fé católica”; os que exterminaram praticamente todos os cristãos cátaros e albigenses (França, século XIII), numa terrível cruzada (proclamada contra eles pelo papa Inocêncio III), também diziam ter fé em Deus e eram cristãos católicos. Os que mataram milhares de pessoas nas cruzadas dos cristãos contra os muçulmanos (séculos XI-XIII), e também durante todo o longo período da “Santa Inquisição”, também se diziam “cristãos”. Os que escravizaram e exterminaram milhares de africanos e de índios durante o período da escravatura no Brasil e nas Américas também acreditavam em Deus e diziam-se “cristãos”. De que adianta crer em Deus e vivenciar o desamor, o ódio, as guerras, os preconceitos e a discriminação?

 

Quase todas as pessoas deste planeta (cerca de 95% ) acreditam em Deus, mas poucas vivem de acordo com essa crença (RAMATIS, 1996b, p. 41-42). E o próprio Ramatis faz uma séria reflexão sobre a responsabilidade dos 95% dos terrícolas que dizem acreditar em Deus, mas que não traduzem essa crença na vivência do amor, da paz e da fraternidade. Melhor seria, e menos responsabilidade teriam – diz corretamente esse mesmo autor – se eles se declarassem ateus (ibid, p. 42).

 

Será que a fé em Deus, por parte das milhares de crenças religiosas deste planeta, tem realmente contribuído para a paz no mundo? A História prova o contrário, mostrando as inúmeras e catastróficas guerras causadas por motivos religiosos. Tudo isso ocorreu (e continua ocorrendo) neste planeta porque as pessoas que se dizem “religiosas” ou “cristãs” ainda não entenderam que a “verdadeira religião” não consiste essencialmente em “crenças”, mas na “vivência do amor”. Essa verdade tem apoio em várias passagens bíblicas, como (entre outras) o seguinte versículo escrito por Tiago, quando ele afirma de maneira claríssima que “a religião pura e sem mácula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisto: em assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e em guardar-se livre da corrupção do mundo” (Tiago 1, 27).

 

Esta, convém repetir, é a religião, a verdadeira religião universal. Quem a praticar estará “salvo”. No feliz dizer do sacerdote católico Lauro Trevisan, “um dia [...] quando o mundo acabar, desaparecerão as religiões, os credos, os dogmas e costumes, as nacionalidades, tudo. Apenas subsistirá o amor. Porque só o amor é infinito” (TREVISAN, 1988, p. 107).

 

O próprio apóstolo Paulo, considerado o verdadeiro fundador do “cristianismo mítico”, e que em suas cartas dá muito mais ênfase à fé do que à mensagem de amor autenticamente ensinada por Jesus, afirma: “A caridade [= o amor] jamais passará” (1Coríntios 13, 8). É ainda esse mesmo “apóstolo da fé” que afirma: “Ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar os montes, se não tivesse a caridade [= o amor], eu nada seria” (1Coríntios 13, 2).

EXEMPLOS DE PESSOAS QUE SOUBERAM VIVENCIAR O AMOR INDEPENDENTEMENTE DE SUAS CRENÇAS

A história da humanidade está cheia de exemplos de pessoas que foram verdadeiramente boas, no sentido de terem pautado sua vida pela lei do amor, independentemente de terem ou não professado um determinado credo religioso.

 

A título de exemplificação, conta-se que, certa vez, Madre Tereza de Calcutá estava cuidando de um doente, na Índia, quando ele perguntou-lhe: “Qual é a sua religião?” E ela lhe respondeu: “A religião do amor!” Alguém poderia perguntar por que ela não confessou que sua religião era o catolicismo. E eu certamente lhe responderia, sem titubear, que Madre Tereza de Calcutá, como Irmã Dulce, Dom Hélder Câmara, Vicente de Paulo, Francisco de Assis, Dom Bosco, o papa João Paulo II (e inúmeros outros “gigantes” da espiritualidade católica) foram exemplos de pessoas que souberam conciliar a prática do amor com seu credo religioso particular, no presente caso, o catolicismo. O mesmo fizeram inúmeros outros “santos” de qualquer religião ou de nenhuma religião, como, entre outros: Martin Luther King Jr. (evangélico), Mahatma Gandhi (hinduísta), Baruch de Spinoza (judeu), Chico Xavier (espírita), Demócrito (pagão) e Bertrand Russell (ateu). Exemplos como esses, isto é, de pessoas que souberam vivenciar o amor independentemente de suas crenças religiosas (e independentemente de terem ou não uma religião particular), corroboram a tese pluralista que defendo em meus livros ecumênicos, segundo a qual NÃO IMPORTA O CAMINHO, mas a qualidade do produto que por ele é conduzido!

 

Em outras palavras, para concluir, como tenho dito e repetido, para Deus (e para mim), não importa a religião que se professa, mas o amor que se pratica!



Escrito por José Pinheiro de Souza às 00h06
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MEU DEUS E MEU JESUS

(12/06/08)

 

 

O leitor já deve ter percebido que meu Deus e meu Jesus não são o mesmo Deus e o mesmo Jesus do cristianismo dogmático e mítico dos cristãos (PAULINISMO). Nesse sentido, talvez eu seja tachado de “ateu” pelos cristãos dogmáticos, pois meu Deus e meu Jesus são bem diferentes do Deus e do Jesus deles, como resumirei na matéria de hoje:

 

1)     Meu Deus, como já declarei, é o mesmo Deus da Revelação Espírita, o qual é conceituado nestes termos: “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, resposta à pergunta nº 1: “Que é Deus?”). “A pergunta formulada por Kardec despersonaliza a divindade, ao indagar que é e não quem é Deus” (MIRANDA, 2002, p. 100).

2)     Em outros termos, meu Deus, não é antropomorficamente conceituado como PESSOA, pois Ele é IMPESSOAL. Como já vimos, a idéia de um Deus antropomórfico, pessoal,  é um mito ingênuo e infantil, uma maneira humana, metafórica, de se falar sobre Deus.

3)     Meu Deus, portanto, como o dos espíritas, é uno, mas não trino. E meu Jesus não é literalmente uma pessoa divina, mas uma pessoa inteiramente humana.

4)     Meu Jesus não é literalmente Deus encarnado, mas um espírito puro, que veio a este mundo para ensinar-nos a verdadeira religião (a religião do amor) – um código de moral (ou de ética) universal, resumido na lei do amor (amor a Deus e ao próximo), a única forma de religiosidade capaz de unir a humanidade.

5)     Meu Deus não é literal e antropomorficamente conceituado como “PAI”, e meu Jesus não é literalmente “Filho de Deus”, nem nasceu miraculosamente de um parto virginal.

6)     Meu Deus “não se encarnou como homem Jesus, para que pudesse ser torturado e executado em expiação do pecado hereditário de Adão” (DAWKINS, p. 325).

7)     Meus Deus não pode ter “mãe”. Logo, a mãe de Jesus, não pode ter sido “Mãe de Deus”.

8)     Meu Jesus não é literalmente Deus e homem, mas só homem.

9)      Meu Jesus é um personagem histórico, real, e não mítico.

10)  Meu Deus e meu Jesus não são exclusivistas, mas pluralistas.

11)  Meu Jesus não nasceu em Belém, mas em Nazaré.

12)  Meu Jesus possui pai biológico.

13)  Meu Deus e meu Jesus não fundaram nenhuma religião (ou igreja).

14)  A única religião de meu Deus e de meu Jesus é A RELIGIÃO DO AMOR.

15)  Meu Jesus não é o único caminho de salvação (SÓ JESUS SALVA!), mas um caminho ao lado de muitos outros.

16)  Meu Jesus não instituiu nenhum sacramento.

17)  Meu Jesus não ressuscitou, pois ele não morreu (ninguém morre).

18)  Meu Jesus não encerrou a Revelação Divina.

19)  Meu Jesus não retornará fisicamente no final dos tempos para julgar a humanidade.

20)  Meu Jesus não fez “milagres” no sentido de derrogação das leis da natureza.

21)  Meu Jesus não transformou pão em seu corpo nem vinho em seu sangue, nem afirmou que sua carne é verdadeira comida (cf. João 6,55), pois “a carne para nada serve” (João  6,63) (negrito meu).

22)  Meu Jesus nunca declarou ser Deus.

23)  Meu Jesus nunca declarou ser o Messias.

24)  Meu Jesus não ressuscitou nenhum morto, pois ninguém morre.

25)  Meu Jesus não pregou que o inferno eterno existe.

26)  Meu Jesus nunca afirmou que só a fé salva ou que só ele salva.

27)  Meu Jesus nunca afirmou que o batismo é necessário para a “salvação” e que só pode ser “cristão” (e “salvar-se”) quem crer e for batizado.

28)  Meu Jesus também nunca fez essa afirmação: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulas, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28,19) (negrito meu).

29)  Meu Jesus não morreu para resgatar-nos do poder de Satanás, pois Satanás não existe.

30)  Para concluir, meu Jesus resumiu todos os seus ensinamentos no mandamento do amor a Deus e ao próximo: “amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, e dizendo: “Está aí toda a lei e os profetas” (DER, verbete Jesus Cristo) (negrito meu).

 



Escrito por José Pinheiro de Souza às 00h26
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65 - POR QUE SOFREMOS?

(11/6/2008)

 

 

A causa de nossos sofrimentos é um dos temas mais abordados em todas as religiões e filosofias. Muitas pessoas até questionam Deus ou chegam mesmo a perder sua fé na existência dEle, por reflexões do seguinte tipo: “Se Deus existe e é perfeito, bom, tudo sabe e vê, e não cai uma folha da árvore sem sua permissão, por que teria permitido tanto mal no mundo? Por que permitiria que os maus agissem e ferissem os bons? Por que tanto crime, tanta violência, tanto roubo, tanta injustiça, tanta discriminação, tanta pobreza, tanta fome, tanta miséria, tanta doença, tantas guerras  e tanta corrupção no mundo?” (cf. GASPARETTTO, Zíbia, ditado por Lucius. Somos Todos Inocentes. Vida & Consciência Editora. 23. ed. São Paulo: 2006, p. 131).

 

Tentarei agora responder à pergunta que intitula a matéria de meu blog de hoje (POR QUE SOFREMOS?), à luz da Doutrina Espírita:

 

A Doutrina Espírita revela, racionalmente, que o planeta Terra é apenas um dentre os inúmeros mundos habitados do Universo, por sinal, um dos mais atrasados em evolução moral. Daí, a explicação para tanta violência, tantas guerras, tanto ódio, tanto preconceito e tudo o que há de mau neste planeta. A Terra classifica-se como uma escola (primária), um laboratório, uma oficina de trabalho, onde o espírito se esmera, ou deveria esmerar-se, na apuração das suas qualidades espirituais latentes. É também classificada como um planeta de provas e expiações, um “vale de lágrimas”, como se diz na “Salve Rainha” dos católicos.

 

Segundo a Doutrina Espírita, sofremos por dois motivos básicos: 1) porque fizemos mau uso de nosso livre-arbítrio na presente encarnação ou em encarnações passadas; 2) porque escolhemos livremente a existência e as provas que acreditamos serem próprias para o nosso progresso, quando não nos são impostas, ou seja, sofremos para acelerar nossa evolução. “Os sofrimentos são o preço de nossa felicidade” (PALHANO, 1997, p. 108).

 

Convém acrescentar ainda, à luz da mesma Doutrina Espírita, que sofremos porque não amamos. Quem ama não sofre. Viemos a este mundo para aprender a amar a Deus e ao próximo. Deus nos criou simples e ignorantes, mas nos deu a capacidade e a liberdade de aprendermos a amar. E é somente através do amor que venceremos qualquer tipo de sofrimento. É somente através do amor universal, ou seja, do código de moral (ou de ética) universal, resumido na lei do amor, ensinado por Jesus e por muitos outros líderes religiosos, que a Humanidade deixará de sofrer e poderá evoluir para mundos isentos de sofrimento.

 

Deus, conceituado no Espiritismo como “a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” (KARDEC, O Livro dos Espíritos, resposta à pergunta nº 1), nos criou livres para plantarmos o bem ou o mal. Se plantarmos o bem, colheremos o bem, mas se plantarmos o mal, colheremos o mal. Se plantarmos videiras, colheremos uvas, mas se plantarmos carrapicho, só poderemos colher carrapicho. Essa é uma lei divina natural, muito lógica e justíssima.

 

Nossa principal missão neste mundo, como nos ensina a própria Doutrina Espírita, é aprender a amar. Somente através da caridade, do amor, o homem consegue redimir-se de seus débitos e evoluir para mundos mais adiantados, onde passa a viver mais feliz e livre de reencarnações em mundos físicos atrasados como o Planeta Terra. Como já vimos, mas convém repetir, o lema religioso do Espiritismo é este: FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO!

 

O livre-arbítrio é a liberdade que temos de pensar e de agir. Sem o livre-arbítrio, o homem seria uma espécie de máquina ou robô. O livre-arbítrio faz com que o homem se torne sempre responsável por aquilo que faz ou que não faz. Ele goza dessa liberdade e é em virtude desta faculdade que ele escolhe livremente a existência e as provas que acredita serem próprias para o seu progresso, quando elas não lhe são impostas; ele conserva a liberdade no estado corporal, a fim de poder lutar contra essas mesmas provas. Em outras palavras, como já disse, o homem colhe o que planta.

 

A resposta à pergunta que intitula a matéria de meu blog de hoje (POR QUE SOFREMOS?), dada pela Doutrina Espírita, é bem mais racional do que a resposta fornecida pelo cristianismo mítico, segundo a qual todos nós sofremos  por causa do “pecado original”, que herdamos de nossos primeiros pais, Adão e Eva.

 

Essa doutrina mítica do pecado original, como já vimos, é totalmente falsa, pois Adão e Eva não existiram e, conforme comprova a Ciência, os seres humanos não se originaram de um único primeiro casal (Adão e Eva).

 

Nesse sentido, cai igualmente por terra, a doutrina paulinista mítica da morte de Cristo na cruz para nos libertar do “pecado original”, herdado de Adão e Eva, causa principal de todos os nossos sofrimentos.

 

Por isso, mesmo não sendo ateu (pois creio no Deus dos Espíritas), vou concluir a matéria de hoje com o seguinte pensamento de um escritor ateu:

 

Agora o sadomasoquismo. Deus encarnou-se como homem, Jesus, para que pudesse ser torturado e executado em expiação do pecado hereditário de Adão. Desde que Paulo [PAULINISMO] expôs essa doutrina repugnante, Jesus vem sendo adorado como o redentor de todos os nossos pecados. Não apenas o pecado de Adão: pecados futuros também, decidam ou não as pessoas futuras cometê-los. (DAWKINS, Richard. Deus, Um Delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 325.)

 

 

 

 

 



Escrito por José Pinheiro de Souza às 00h06
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64 - RELIGIÃO E CIÊNCIA

(10/6/2008)

 

 

Por que as religiões temem a ciência? Indubitavelmente, as religiões têm medo da ciência porque ela pode contradizer suas verdades de fé, o que, de fato, já aconteceu, por diversas vezes, na história das relações entre religião e ciência.

 

Apesar das exceções, a luta quase sem trégua (pelo menos no Ocidente) entre fé e razão (ou entre religião e ciência) já dura mais de 400 anos, desde o século XVI, quando Galileu Galilei (1564-1642), um dos fundadores da Ciência Moderna, confirmou, de maneira irrefutável, a tese de Nicolau Copérnico (1473-1543), segundo a qual a Terra não era o centro do Universo, como sustentavam Ptolomeu e as igrejas cristãs.

 

Condenado pela Inquisição da Igreja Católica, Galileu foi obrigado a negar a verdade do heliocentrismo em favor do erro do geocentrismo, defendido pelas igrejas cristãs. A Igreja Católica levou mais de 300 anos para reconhecer oficialmente seu erro, quando o papa João Paulo II, somente em 1997, decidiu tardiamente perdoar Galileu.

 

Por concordar com a visão copernicana, o frade Giordano Bruno “foi arrastado à Inquisição e, ao não concordar em retratar-se, foi queimado na fogueira em 1600” (HELLMAN, 1999, p. 24). “Também o filósofo natural italiano Lucilio Vanini, que diziam ter ensinado a identidade entre Deus e a natureza, foi queimado em Toulouse, em 1619” (KÜNG, 2002, p. 187).

 

O fosso entre ciência e religião acentuou-se ainda mais quando, no final do século XVIII (o século das luzes), surgiu o Iluminismo, cujas descobertas científicas no campo dos estudos bíblicos indicavam que a maior parte das escrituras sagradas não passava de mitos e lendas e que a Bíblia era muito mais “palavra dos homens” do que “Palavra de Deus”.

 

A barreira entre fé e razão ficou ainda mais intransponível, quando, no século XIX, Charles Robert Darwin lançou sua teoria sobre a evolução das espécies. Somente depois de muita demora e hesitação, Darwin resolveu publicar, em 1859, sua obra revolucionária, A Origem das Espécies, que destruía a versão religiosa bíblica sobre a criação. A agitação nas igrejas foi enorme.

 

Se hoje muitos cristãos já aceitam a teoria evolucionista, muitas igrejas (sobretudo protestantes fundamentalistas) ainda a negam, preferindo acreditar na versão bíblica mítica da criação das espécies, pregando e ensinando aos seus fiéis, em plena contradição com a ciência, o dogma  mítico do “pecado original”, segundo o qual todos os seres humanos descendem de Adão e Eva, os quais, por terem pecado, transmitiram hereditariamente o seu pecado a todos os homens, o que exigiu de Deus que enviasse seu Filho Jesus para morrer numa cruz, a fim de resgatar a humanidade desse “pecado original”.

Essas crenças mitológicas são um belo exemplo de “fé cega”. Tinha muita razão Einstein, ao afirmar que “a ciência sem religião é manca; a religião sem ciência é cega” (apud TOURINHO, 1994, p. 73) (negrito meu).

Contradições entre a Bíblia e a Ciência

A Bíblia judaico-cristã sempre esteve em conflito com a Ciência. Para os cristãos liberais, a ciência e a fé não devem estar em conflito, mas em harmonia, de acordo com o princípio da unicidade da verdade. Para a grande maioria dos cristãos (sobretudo os da ala fundamentalista), contudo, as verdades da Bíblia são independentes das verdades da Ciência, ou seja, a Bíblia pode contradizer a Ciência, mas não vice-versa.

 

Como conciliar, entretanto, as profundas contradições entre o que a Bíblia afirma e o que a Ciência comprova? Quem está com a verdade? A Bíblia, ou a Ciência? Pode a fé, de fato, contradizer a ciência? A História tem provado o contrário, isto é, que a Ciência pode contradizer a Bíblia.

 

Vejamos, a seguir, vários exemplos de contradições explícitas entre a Bíblia e a Ciência (ou entre a fé e a razão):

1)  Enquanto a Bíblia se fundamenta no geocentrismo, a Ciência se baseia no heliocentrismo (lembrar o suposto milagre bíblico em que Josué mandou “literalmente” parar o Sol – Josué 10,13 – um belo exemplo da “fé-crença cega” no geocentrismo).

2)  Se, pela narrativa bíblica, o primeiro homem apareceu na Terra há 6 mil anos, a Ciência comprova que “a espécie humana tem pelo menos 40 mil anos de existência na Terra” (ANDRADE, 1995, p. 38).

3)  Enquanto pela interpretação literal da narrativa bíblica do livro do Gênesis, todos os seres humanos se originaram de único primeiro casal (Adão e Eva), a Ciência comprova que essa crença não tem o menor sentido perante as pesquisas antropológicas sobre a origem do homem nesse planeta.

4)  Enquanto, pela interpretação literal da narrativa bíblica do livro do Gênesis, a morte entrou no mundo em conseqüência do “pecado original”, pela explicação da Ciência, a morte é um fenômeno natural pelo qual todos os seres vivos sempre tiveram que passar.

5)  Enquanto a Bíblia se baseia em crenças, lendas, mitos e fábulas, a Ciência fundamenta-se em fatos.

6)  Enquanto as verdades bíblicas são consideradas “absolutas”, as verdades científicas são, por definição, todas “relativas”.

7)  Enquanto a Bíblia fala de “ressurreição corporal” (no sentido de “reanimação do corpo físico que desceu à sepultura”), a Ciência prova que é impossível a reanimação do corpo físico de alguém que sofreu morte cerebral.

 

Para concluir, reflitamos: Por que tanta desarmonia entre a Religião e a Ciência? A verdade que Deus nos revela pode estar em contradição com o que a Ciência comprova? Creio que não, “já que a unidade da verdade é um postulado fundamental da razão humana” (OLIVEIRA, 2000, p. 46).

 



Escrito por José Pinheiro de Souza às 00h06
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63 - CONCEITO DE “MITOS CRISTÃOS”

(9/6/2008)

 

 

Embora o conceito de “mitos cristãos” já tenha sido ligeiramente abordado em matérias anteriores deste blog, desejo aprofundá-lo um pouco mais hoje, inclusive informando a origem desse conceito na história do cristianismo.

 

“Mitos cristãos”, na concepção dos teólogos cristãos liberais/pluralistas, são as crenças (os dogmas) e os relatos bíblicos irracionais do cristianismo e que, portanto, contradizem a razão, a lógica, a ciência e o bom senso. Um exemplo claro de um mito cristão, como já vimos, é a doutrina da encarnação miraculosa e divina de Jesus, cujo caráter mítico é bem expresso pelo maior teólogo cristão pluralista do mundo, o escritor presbiteriano John Hick, nos seguintes termos:

Eu sugiro que seria melhor expressar o caráter desta doutrina como uma idéia mitológica. E eu uso o termo mito no seguinte sentido: um mito é uma história contada, mas não é literalmente verdadeiro; o mito é uma ideia ou uma imagem que é aplicada a alguém ou a alguma coisa, mas não pode ser literalmente interpretado, pois quer somente despertar uma atitude particular nos seus ouvintes. [...] Portanto, a afirmação de que Jesus foi Filho encarnado de Deus não pode ser considerada uma verdade literal (HICK, 1977, p. 178) (negrito meu).

Com base nas concepções de mito e de mitos cristãos, fornecidas pelos teólogos liberais e pluralistas, são, portanto, “mitos cristãos” todos os conceitos metafóricos/analógicos/antropomórficos de Deus, tais como: Deus é Pessoa, Deus é Pai, Deus é Filho, Deus é uno e trino, bem como os conceitos cristológicos: Cristo é Deus, Cristo é Pessoa Divina, Cristo é literalmente Filho de Deus, Cristo é literalmente Deus encarnado, Cristo nasceu miraculosamente por obra e graça do Espírito Santo, além de outras doutrinas cristãs, como: Maria é Mãe de Deus, Jesus ressuscitou fisicamente (mito da ressurreição dos mortos), subiu ao céu fisicamente e retornará fisicamente no fim do mundo para julgar a humanidade, mandando os bons para o céu e os maus para o inferno eterno etc.

Origem do Conceito de “Mitos Cristãos” na História do Cristianismo

Na História do Cristianismo, o conceito de “mitos cristãos” nasceu, no século 19, com o genial protestante liberal (alemão) David Friedrich Strauss (1808-1874), com o lançamento de sua obra revolucionária, em 1835, quando tinha apenas 27 anos, intitulada Vida de JesusAnálise Crítica (no original, Das Leben Jesu Kritisch Bearbeitet).

 

Nas palavras do teólogo católico Pe. Caetano Minette deTillesse,

Strauss marca uma distinção clara, dura, genial, entre os acontecimentos “históricos” e as reinterpretações que a eles se acrescentaram. Strauss batiza esses acréscimos de “mitos”, palavra que se tornará “clássica” na pesquisa protestante liberal [...] O “mito” falado por Strauss, e reassumido com tanto entusiasmo por toda a pesquisa protestante liberal, corresponde àquilo que os mesmos protestantes chamavam de “dogma” (TILESSE, 1998, p. 7) (negrito meu).

Mais explicitamente, Strauss fez nos evangelhos uma clara distinção entre elementos míticos e históricos, definindo os primeiros como algo lendário ou sobrenatural. A tempestade que irrompeu sobre as 1400 páginas de análise minuciosa custou-lhe a perda de seu primeiro emprego como professor de um seminário em Tübingen. Seus críticos o perseguiram até o ano de sua morte, em 1874.

 

A escolha que Strauss fez na sua avaliação dos evangelhos foi entre o “Cristo da fé” (o Jesus sobrenatural, mítico, uma pessoa totalmente divina) e o “Jesus histórico” (uma pessoa totalmente humana). Strauss, no dizer dos autores do Dicionário Enciclopédico das Religiões (DER), “considerava a história evangélica como um mito, surgindo da idéia preconcebida que o povo judeu tinha do Messias. A tese suscitou grande escândalo no clero alemão” (DER, verbete Strauss, David Friedrich).

 

Strauss preocupou-se em mostrar o caráter mítico de muitas narrativas evangélicas, por exemplo, a narrativa da tentação de Jesus. Ele argumenta que essa história foi inventada pela imaginação da Igreja antiga, ou copiada da literatura budista, pois Buda também foi supostamente tentado pelo diabo. O diabo (demônio, Satanás), como personagem real, é, conforme já vimos, uma figura puramente mitológica. Strauss mostrou que a Bíblia judaico-cristã contém, de fato, uma grande quantidade de mitos.

 

Ao rotular os “dogmas” do cristianismo (principalmente os do catolicismo) de “mitos”, Strauss foi terrivelmente perseguido, mas seu pensamento continua vivo até hoje, através de seus inúmeros seguidoress, principalmente os atuais filósofos e teólogos pluralistas cristãos, como o famoso escritor inglês John Hick, o maior filósofo e teólogo pluralista do mundo atual, com dezenas de obras publicadas, quase todas defendendo a tese de que os dogmas fundamentais do cristianismo tradicional, como o da filiação divina natural de Jesus e o da encarnação de Deus em Jesus, são mitos cristãos e não verdades históricas absolutas (cf. HICK, 1977).

 

Como já vimos, o famoso teólogo alemão Rudolf Bultmann (1884-1976), o maior líder do grupo da chamada neo-ortodoxia protestante, também sempre defendeu a ideia de que os evangelhos, se interpretados literalmente como eventos históricos, nada mais são que uma coleção de mitos. Por isso, alega, basta “confiar” no testemunho de fé da Igreja nascente no “Cristo ressuscitado” (cf. ELIADE, 2006, p. 242; BULTMANN, 2004).

 

Em suma, para concluir, “mitos cristãos”, na concepção dos teólogos cristãos liberais e pluralistas, são as narrativas bíblicas e as principais crenças dogmáticas e irracionais do cristianismo tradicional, tais como: o pecado original, o parto virginal, a encarnação divina de Jesus, a unicidade salvífica de Cristo, o seu sacrifício expiatório, a ressurreição dos mortos, o juízo final, a trindade etc (cf. WILES, 1977, p. 154).

 

 



Escrito por José Pinheiro de Souza às 09h40
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